Franciscanismo e unidade em Pedro Sinde
A filosofia de Pedro Sinde não comporta nenhuma sistematização. A obra é solitária e depende antes de tudo da sua personalidade. No entanto, a título de indicação, assinalaremos o seu carácter poético (errância) muito especial. Entende-se aqui que a palavra poética é, por conseguinte, participação, união no acto cognoscitivo, (pre)experiência visionária. A nosso ver o poeta se caracteriza - segundo Heidegger e a tradição mítica - pelo mensageiro. Ele supõe, portanto, a voz do querubin (o anjo), a manifestação sonora da mediação suprema. Com este termo - “anjo” - que, originalmente significava mediador, designamos a inteligência em sentido tradicional. É um acto de união entre o manifestado e a energia primeira, o “símbolo” por excelência.
Pensamento meditativo
Ainda aqui convém que nos entendamos quanto ao sentido que podemos conferir às reflexões de Pedro Sinde - iluminadas por fulgurações poéticas – se considerarmos alguns aspectos mais salientes da lógica e da linguagem que emprega - que podem ser focalizadas como uma tentativa de elucidação das categorias constitutivas do pensamento português (o seu fulcro visível/legível que vive nos porões da nossa experiência cultural). Notemos aqui, desde o primeiro momento, que o seu género é o ensaio; o estilo é o do pensamento meditativo (num tempo em que se assiste, no seu conjunto, à (des) essencialização do homem e a devastação da terra). Aí distinguimos, com efeito, algumas premissas fundamentais, a saber: a filosofia operativa tendo em conta os ensinamentos de António Telmo desde a sua “Arte Poética” (1963) e de Henry Corbin (a “sabedoria do Oriente” e o seu núcleo da gnose). A sua pesquisa apoia-se, como já indicamos, no papel medianeiro da imaginação, da imagem e, por conseguinte, da “palavra perdida em busca de si mesma”.
Arqui-originário
Na sua escrita sentimo-nos interpelados por um pensar - na sua incidência arqui-originária – enraizado, evidentemente, num fundo helénico e pré-helénico (Oriental). Isto é bem evidente, por exemplo, nos inúmeros estudos – comentários específicos e dissecações pertinentes - em torno da hermenêutica espiritual (esse algo de irredutível da nossa cultura que pode ser des-crita e de-cifrada). É a partir deste constante esforço de atenção – questionamento - que deverão ser focados os seus trabalhos sobre o autor de “Verbo Escuro” – Pascoaes - aquilo que chamaremos imaginal - sob o ângulo dos distintos “estados de visão” (poético, filosófico e “místico”). Uma leitura mais atenta dos seus livros faz surgir nomes, evoca ressonâncias.
Pendor iniciático
Mas julgamos necessário fazer algumas precisões à volta do livro que Pedro Sinde acaba de publicar: “O Canto dos Seres – Saudade da Natureza” (Serra D`Ossa, 2008). Convém observar que ele situa-se num cruzamento privilegiado entre a conceituação fundante da gnose ocidental com a oriental (aproxima-se mesmo de um certo cristianismo de pendor iniciático, que se reclama da “sancta paupertas”, a pobreza, espinha dorsal dos ideais de S. Francisco, a via evangélica da “ecclesia spritualis”). O seu ensaio é caracterizado por re-pensar a (nova) sensibilidade holística, um paradigma surgido nos últimos tempos, que busca incluir todas as formas de vida (do grego hólos = totalidade). Daí se reconhece que o sagrado transparece através do véu da matéria. Existe uma fio condutor que atravessa esta reflexão e análise: a questão do valor intrínseco do não humano na criação.
Natureza-livro
Em dois capítulos – Poética e Filosófica – o autor bosqueja um saber da terra, vivens, viva; apoia-se, embora na noção clássica, de natura, se assim podemos dizer, como um “livro” (cifra). Ora o respeito à natureza sempre fez parte do misticismo português e é uma ideia gnóstica (o universo é mais importante que o homem). Na actualidade quando falamos de ecologia teremos de ter presente três acepções da desinência grega que está na origem da mesma palavra (oikos). “Oikos” é a casa, a natureza ou casa cósmica na qual habitamos; o ecologismo manifesta preocupação com essa casa ameaçada. Mas de “oikos” vem também economia, que significa preocupação pelo governo da casa. E, finalmente, de oikos, vem “ecumene”, o ecumenismo, que faz referência à casa social de todos; é a preocupação pela realidade humana e não-humana, concretamente das diferentes culturas e religiões que manifestam maneiras diferentes de relacionar-se com o mundo.
Crítica à visão antropocêntrica
Temos de reconhecer que este ensaio heterodoxo - no contexto do nosso mundo técnico-científico e do positivismo integral - merece uma série discussão, pois caracteriza-se por uma crítica cerrada à (cosmo)visão antropocêntrica derivada da categoria homo-imago Dei, que põe o homem como o representante de Deus na Terra, para usar e abusar do mundo ao seu livre arbítrio. Neste contexto nasceu a ciência e a tecnologia modernas, como extrapolação da teologia cristã da natureza que coloca incondicionalmente a terra ao serviço do ser humano. A teologia em sua totalidade parece ter descuidado a sua reflexão da natureza, em prol da história. Deixo aqui de parte, porque é exterior ao que temos vindo as debater, a discussão sobre o a-teísmo, que renuncia ao conceito de Deus por indignação frente às injustiças deste mundo e que se obriga - pretensamente - a conceber o mundo como entregue a si mesmo e suas leis não admitindo a sua intervenção.
“Materia matriz”
Somos filhos de Adão, como conta o relato bíblico, o que significa em hebreu “filhos da terra” (adamá). Até ao versículo 2, 22, de Génesis, o termo Adão caracteriza o homem, princípio universal e homogéneo de toda a criação, arquétipo de todos os seres. Reaparece, portanto, aqui a chamada questão do mundo - que acolhe em si tanto a in-manência quanto a trans-cendência – e que re-aparece como (co) criação – no quadro da dramática humana. A natureza – enquanto “materia matrix” – pressupõe atermo-nos à diferença específica da cada ser. Ora julgamos poder afirmar – segundo Pedro Sinde – que há, por exemplo, diferentes modos de ser. Também de cantar. “Há – refere - o canto do mineral, o canto do vegetal, o canto do animal, o canto do anjo e o silêncio de Deus” (p. 136).
Cosmocentrismo
A tese do autor, nos termos em que a apresenta, nos parece inédita: veicula uma espécie de franciscanismo - cosmocentrismo – e onde se privilegia a relação simbiótica em todas as criaturas. A força da vida (sobre) natural ocupa o centro - no desdobramento de um itinerário questionador de que “Terra Lúcida – A intimidade do homem com a natureza” (2005) foi o ponto de partida. Propondo-se reflectir sobre o acentuado pessimismo a respeito da natureza e do conhecimento humano presente numa certa metafísica cristã – assente na noção gnóstica de “queda” que acaba por demonizar o cosmos e faz da matéria algo simplesmente e intrinsecamente “mau” e a natureza hostil ao ser humano - Pedro Sinde postula a sua proximidade a uma visão holística, visando o total, complexo e processual em toda situação. Dizendo sinteticamente: o holismo opõe-se ao individualismo, significando claramente as diferentes relações e a globalidade unindo o homem ao universo. Sabemos hoje, com S. Francisco de Assis e a filosofia zen, que afirmação e negação comportam apenas uma visão parcial. O que importa é captar a unidade – tendo em conta esse singular-plural que é mundo - , visto que a dualidade tem a sua origem na ignorância.
Alexandre Teixeira Mendes